quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Adoração e ... Ação Social

Adoração e ... Ação Social

Soa com estranheza aos ouvidos da maioria dos ditos cristãos a possível conexão da adoração com a ação social. Como poderia juntar as duas coisas? Fato é que há duas questões nesse interessantíssimo assunto, dentre tantas outras que poderiam surgir no interesse de discernir os entendimentos. Primeira questão é o entendimento real do que venha a ser adoração e onde ela acontece.

Um amontoado de preconceitos e subterfúgios baratos está às mãos de quem queira para definir, sentir, extravasar, apaixonar e até mesmo levar uma vida extravagante de adoração. Está cada vez mais em pauta o táctil, o sensorial, o arrepiar dos pêlos, a voz trêmula e rouca, as declarações apaixonadas e quase eróticas de amor a Deus. É uma adoração de sentimentos exacerbados, confusa e pueril. Essa adoração também se caracteriza por acontecer na maioria das vezes apenas dentro dos templos, publicamente, o que de certa forma, dá status aos que manifestam desta maneira seus sentimentos.

Por outro lado há aqueles que de forma quase divina apenas assistem todas as manifestações de adoração e céticos, apenas criticam os “fanáticos”. “Pra que isso tudo?”
Perguntam eles, pondo-se na posição de juízes, observadores e fiéis sensores da adoração dos outros. Estes também têm o seu momento de “adoração” apenas dentro dos templos.

Uma adoração litúrgica e desequilibrada emocionalmente. Enclausurada no templo, no tempo, e no espaço de um sacrário. Adoração que esbarra na vontade e pretensão de muitos em deidificar sentimentos; sentimentos e humanos. Adoração que se desmancha, se desintegra ao contato com o sol da realidade humana e da justiça social. Adoração cega, que ignora os que estão à margem da sociedade. Adoração que, morta em si mesma (já que tem fim somente em si), não é capaz de levar vida aos que carecem dela.

“Quero cantar o que vivo, quero viver o que canto, seja meu riso meu pranto, viver e cantar”, assim diz um poeta e profeta chamado João Alexandre em uma de suas músicas. Viver e cantar. Creio que a ordem das palavras não foi à toa. Não foi por acaso. Primeiro tem que viver. Não estou fazendo com isso nenhum apelo à teologia da libertação, mas creio ser necessário viver vida cristã pra poder falar dela. Sem nenhuma espiritualização esotérica, sem caiar os sepulcros, sem usar dos recursos da oratória e da retórica. Viver, ser gente, ser humano. Preocupar-se com o dia-a-dia. Sofrer com a alta dos preços, chorar com os que não tem comida e nem lutam pra tê-la. Irritar-se com o congestionamento maçante ao levar os meninos ao colégio, e sentir a dor dos que se amontoam nos transporte coletivos; Prantear com aqueles que não sabem se são gente ou bicho, ignorantes a realidade do mundo, presos numa sociedade que não lhes concede a cidadania humana.

Nessa hora cadê a adoração? Onde estão os braços levantados? Onde os aleluias e glória a Deus? Onde as línguas estranhas? Onde o amor? Nessa ora ninguém quer reconhecer Deus? Ninguém quer reconhecer quem Ele é? Ninguém quer reconhecer suas responsabilidades cristãs... Ninguém que sujar as mãos... Adoração e ação social deveriam andar juntas. Fé e obras, alguém já ouviu falar nisso?
É momento já tardio de sermos cristãos verdadeiros. De usarmos os dons para sermos benção na vida dos outros. Está na hora de pegar meu violão e cantar nos hospitais, nas praças, nas catedrais e levar juntos, num único pacote, o presente que Deus já me deu. Está na hora de nós largarmos a hipocrisia de lado e começarmos a dar sabor às coisas, pessoas, momentos; oportunidades de mostrar de forma real o amor de Deus.

Por Luiz Eduardo Pereira Coelho

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